Portugal atravessa um momento decisivo para o futuro do seu setor da saúde. Impulsionado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), o país vive não apenas um ciclo de investimento, mas uma oportunidade concreta de transformação. Mais do que colmatar lacunas tecnológicas, o PRR representa uma mudança de paradigma: a transição para um modelo de saúde mais digital, integrado, orientado por dados e centrado nas pessoas.
Contudo, esta transformação só será efetiva se a inovação sair do plano conceptual e chegar ao terreno. A criação de ambientes reais de experimentação, numa lógica de test beds, assume aqui um papel essencial. Estes contextos permitem validar soluções em ambiente clínico, reduzir barreiras à adoção e acelerar a sua integração nos sistemas de saúde. Sem esta ligação entre desenvolvimento e implementação, o potencial transformador da tecnologia ficará inevitavelmente limitado.
É neste enquadramento que a agenda mobilizadora Health from Portugal (HfPT) se afirma como um motor estratégico para a inovação em saúde. Enquanto Centro de Tecnologia e Inovação, o Instituto CCG/ZGDV desempenha um papel relevante neste ecossistema, contribuindo para o desenvolvimento de soluções que transformam conhecimento científico em impacto real. Desde sistemas de sensorização e robótica para monitorização remota até plataformas inteligentes de apoio à decisão clínica, nomeadamente no controlo de infeções e resistência antimicrobiana, o CCG/ZGDV demonstra como as tecnologias digitais podem responder a desafios concretos do setor da saúde.
Mas a verdadeira transformação exige uma visão ainda mais ampla.
A abordagem One Health recorda-nos que a saúde humana não pode ser dissociada da saúde animal, dos ecossistemas e da biodiversidade. Num mundo marcado por alterações climáticas, perda de habitats naturais e crescente emergência de zoonoses, torna-se evidente que os desafios da saúde são, cada vez mais, sistémicos. Ignorar esta interdependência compromete não só a capacidade de resposta, mas também a sustentabilidade das soluções que procuramos construir.
Neste contexto, as novas tecnologias assumem um papel determinante. A capacidade de recolher, integrar e analisar grandes volumes de dados provenientes de múltiplas fontes (clínicas, ambientais e epidemiológicas) abre caminho ao conceito de Digital One Health. Este paradigma permite compreender melhor a complexidade dos sistemas de saúde, antecipar riscos, apoiar decisões mais informadas e desenhar intervenções mais eficazes e preventivas.
Ainda assim, a aceleração tecnológica traz consigo novas responsabilidades. A utilização de dados sensíveis exige modelos robustos de governação, assentes em princípios de ética, transparência e confiança. Abordagens que regulam o acesso e a partilha de informação tornam-se essenciais para equilibrar o valor dos dados com a proteção dos cidadãos. Paralelamente, a própria digitalização deve ser pensada à luz da sustentabilidade ambiental. A otimização de algoritmos e infraestruturas é indispensável para garantir que o progresso tecnológico não amplifique os desafios ecológicos que procuramos mitigar.
Neste ecossistema complexo, os Centros de Tecnologia e Inovação (CTI) assumem-se como agentes-chave. Funcionam como plataformas de ligação entre ciência, indústria e setor público, acelerando a transferência de conhecimento e a criação de soluções colaborativas. O Instituto CCG/ZGDV destaca-se precisamente por essa capacidade de integração: não só desenvolve tecnologias inovadoras, como investe na capacitação de profissionais, contribuindo para que a inovação seja efetivamente adotada e sustentada no tempo.
Este papel ganha ainda maior relevância quando enquadrado nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). A promoção de saúde de qualidade, a inovação responsável e a ação climática são desafios interligados que exigem respostas igualmente integradas. Ao alinhar tecnologia, conhecimento e colaboração, os CTI contribuem para soluções que ultrapassam fronteiras setoriais e geográficas.
O momento atual exige, por isso, mais do que investimento. Exige visão. O PRR oferece o impulso financeiro necessário, mas a sua verdadeira eficácia dependerá da capacidade de promover colaboração, acelerar a inovação no terreno e adotar uma abordagem integrada da saúde. No Instituto CCG/ZGDV, essa visão traduz-se num compromisso claro: desenvolver soluções digitais inovadoras que respondam aos desafios atuais e futuros da saúde. Porque o futuro da saúde não será apenas digital, será necessariamente integrado, colaborativo e global.
Artigo de opinião de Maria Luis Miranda, Science & Business Manager



