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Da transferência à co-criação na relação entre academia e empresas
23 Fevereiro, 2026

Durante muitos anos, falámos de colaboração academia-indústria quase exclusivamente como um processo de transferência de tecnologia. A lógica era simples: a academia investiga, descobre, desenvolve; a indústria aplica, comercializa e escala. Um fluxo linear de conhecimento, da produção científica para o mercado.

Esta visão teve mérito. Estruturou políticas públicas, justificou a criação de gabinetes de transferência de tecnologia e ajudou a profissionalizar a gestão da propriedade intelectual. Mas hoje é insuficiente.

Num contexto de transição digital, desafios climáticos, cadeias de valor globais e inovação cada vez mais interdisciplinar, a realidade é outra: a inovação não nasce num ponto fixo para depois ser “entregue” a outro. Ela emerge de interações contínuas, de aprendizagem mútua, de ajustamentos sucessivos entre quem produz conhecimento e quem o utiliza. Pensar a colaboração academia-indústria como co-criação não significa negar a importância da propriedade intelectual, do licenciamento ou da valorização de tecnologia. Significa colocá-los no contexto certo.

O modelo linear parte de um pressuposto implícito: o conhecimento relevante é produzido sobretudo na academia e depois transferido para a indústria. Mas, na prática, as empresas também geram conhecimento crítico, sobre mercados, processos, necessidades reais, constrangimentos técnicos e regulatórios. Quando uma empresa se envolve com a academia, não está apenas à procura de tecnologia pronta. Está à procura de soluções para problemas concretos. E muitas vezes esses problemas ajudam a redefinir a própria agenda científica.

A inovação acontece nesse espaço intermédio, sendo que o maior desafio será cultural. A academia precisa de reconhecer que a colaboração não compromete a excelência científica e a indústria precisa de aceitar que a inovação exige tempo, experimentação e tolerância ao risco. Esta mudança de paradigma tem implicações profundas para quem opera entre universidade e indústria. Os gabinetes de transferência de tecnologia, centros de interface e estruturas de inovação deixam de ser apenas gestores de contratos ou de patentes, tornando-se gestores de relações.

O seu valor está na capacidade de identificar parceiros estratégicos, alinhar expectativas desde o início, criar ambientes de confiança, facilitar comunicação entre culturas organizacionais distintas, entre várias outras. No CCG/ZGDV, acreditamos neste modelo. Como Centro de Tecnologia e Inovação, trabalhamos diariamente na interseção entre ciência e indústria, estruturando projetos colaborativos, reduzindo risco tecnológico e acelerando a criação de soluções digitais com impacto real.

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