Fatores Humanos na Saúde (principais conclusões)

Introdução

A natureza de uma tarefa humana é ditada em grande medida pela ferramenta ou tecnologia empregue. Implementar uma mudança de tecnologia, arbitrariamente, em ambientes críticos é uma prática questionável com resultados muitas vezes imprevisíveis. É, no entanto, algo que acontece com frequência em ambientes hospitalares. Os dispositivos médicos são propensos a erros de interação por diversos motivos, sendo que o erro oficial mais comum é chamado de “erro de uso” ou “erro do utilizador”.

A abordagem dos Fatores Humanos ao fenómeno do “erro de uso” passa por obter uma perspetiva ampla do problema e incidentes e tentar abranger todas as causas. Como parte dos esforços para ir além do erro e da culpa nos incidentes de segurança do paciente, o foco da investigação tem recaído na parte que a tecnologia desempenha para a boa ou má realização de uma tarefa.

Este foi o tópico de um webinar organizado pelo CCG que teve lugar no passado dia 30 de abril, 2021. O evento foi o segundo de uma série denominada “InteracTalk” que se foca em questões ligadas à interação homem-máquina em diferentes contextos de aplicação.
Esta conversa, para debater o erro humano e como desenhar produtos e serviços de saúde centrados na tarefa, no utilizador e no contexto, contou com a participação de José Creissac Campos*, Júlio Martins** e Carlos Silva***.

No seu conjunto, o painel ofereceu uma perspetiva alargada dos desafios de investigação que se colocam ao domínio da saúde.

Aqui reportamos algumas das principais conclusões dessa discussão.

 

Quais são as principais fontes de erro em ambiente médico?

Antes de mais, importa distinguir os termos erro de utilizador e erro de uso. Erro de uso é a expressão mais correta para abordar o erro de uma perspetiva sistémica, e menos acusatória ao utilizador.

Efetivamente, o erro de uso é um dos fatores mais prevalentes de erro médico. Há um conjunto diverso de fatores que contribui para o erro de uso, mas o mais importante diz respeito a falhas no design da interface e na lógica de interação com um dispositivo médico.

Estas falhas na relação Humano-Máquina ocorrem habitualmente quando, do lado da implementação ou do lado do design, se deixa uma falha a descoberto que no contexto certo, poderá resultar em erro.

No que diz respeito à implementação de uma interface, é importante compreender que é uma tarefa complicada e que consome muitos recursos para ser bem executada. Neste processo incluem-se testes, mas os testes encontram erros, não garantem que não haja erros.

Os testes encontram erros, não garantem que não haja erros.  José Creissac Campos

Muitos dos erros de uso acontecem em situações de fronteira que são muito difíceis de prever, e ainda mais difíceis de testar de forma sistemática.

Outro fator a contribuir para estes erros de uso causados por falhas da interface, apesar de cada vez mais rara, é a falta de interação entre a engenharia de software e o design.

Finalmente, a própria complexidade do contexto hospitalar é por si só terreno fértil para situações de fronteira. Pode haver um erro de diagnóstico, de tratamento, um erro cirúrgico, e numa escala maior, pode haver erros no serviço, tais como na marcação de consultas.

A pandemia COVID-19 veio evidenciar algum problema no que diz respeito à interação com dispositivos médicos, ou com o próprio sistema de saúde?

Os nossos convidados foram unânimes: sim. A situação pandémica colocou pressão em diversas frentes:

  1. Processo de certificação de equipamento médico. Tornou-se evidente quão complexo é o processo de certificação de produtos médicos, e como estes foram agilizados em tempos record;
  2. Design de Serviço. Tornou-se clara a necessidade de trazer o design de serviços para áreas como o serviço hospitalar, gestão de crise, sistemas de atendimento mais adaptáveis, rastreio, vacinas, etc.;
  3. Comunicação Clara. É necessário simplificar a comunicação. Exemplos paradigmáticos de oportunidades para melhoria são a mensagem para confirmar a data e hora da vacinação, e a matriz de risco Covid.

A aplicação Stay-away Covid é representativa destes pontos. A forma como foi posta no terreno, sem formação, sem definição clara de quem deveria gerar códigos, e a própria comunicação enganadora – tanto a nível de segurança como mesmo de funcionalidades – contribuíram para o insucesso desta iniciativa.

 

Que métodos de design destacam para estes contextos?

Métodos formais

Existem técnicas automáticas para fazer análises sistemáticas da interação. Estas implicam a construção de modelos de interação dos dispositivos médicos em análise, e de como esta interface é interpretada pelas pessoas. Assim, torna-se possível prever todas as possibilidades de uso e prever os erros de uso. Estes métodos restringem muito a análise, mas permitem analisar aspetos muito específicos de uma interação.

Estas técnicas são fundamentais para garantir a segurança dos dispositivos e são por vezes requisitadas para a certificação de dispositivos médicos pois permitem detetar situações de fronteira que poderiam escapar num teste com utilizadores.

Adicionalmente, o próprio método serve de pretexto de comunicação entre implementação e design colocando perguntas como “já consideraram esta situação” ou “como poderiam evitar que isto acontecesse?”

 

Engenharia de Usabilidade vs. outros processos de design

Podem-se considerar duas filosofias de design distintas em função do problema em análise.

  • Processos de design convencionais. Começam com uma fase de investigação de um problema, seguido de prototipagem, revisão interna, testes de usabilidade com protótipos funcionais e daqui para implementação e lançamento. Pode-se aplicar este processo em aplicações ou produtos que tenham a capacidade de fazer atualizações constantes ao produto e que possam monitorizar junto dos utilizadores os efeitos destas pequenas modificações.

No caso de dispositivos médicos, isto não é possível. A forma mais segura de desenvolver este tipo de produtos é seguindo o processo de Engenharia de Usabilidade reportado na norma internacional IEC 62366. É mais complexo, recorre por vezes às análises formais referidas acima, faz análises de risco em todas as tarefas que podem resultar em erro, passa por várias iterações e o produto só é lançado quando for suficientemente seguro.

“Quando em dúvida, pensar: um erro de utilização com aquele produto causa um incómodo ou uma disrupção à experiência de utilização, ou pode causar um acidente ou uma consequência grave? Carlos Silva

 

Quais os principais entraves ao desenvolvimento e investigação centrada no humano em contextos médicos e hospitalares?

Em geral, há sempre a dificuldade financeira para fazer investigação. Depois há questões de mentalidade, e da própria maturidade e predisposição para a investigação que dificultam este tipo de trabalho.

Sendo a Saúde uma fatia fundamental da economia, deveria ser um ambiente muito mais propício à inovação. Contudo a realidade portuguesa está bem distante desta lógica de investimento. Nos três principais contextos de investigação, as dificuldades apontadas foram:

  1. Hospitais. É extremamente burocrático e exigente o processo para entrar num hospital e ter acesso a pacientes, quer por questões administrativas, quer éticas, quer por falta de interesse em acolher investigação.
  2. Fabricantes. Podem estar interessados nestas técnicas, mas por outro lado não se querem ver associados à ideia do erro. O facto de um fabricante saber da possibilidade de um erro faz com que passe a ser responsável por isso.
  3. Entidades reguladoras. Curiosamente, são os intervenientes com atitude mais aberta e disponível para informar sobre as melhores práticas para investigar e desenvolver. Deste modo conseguem evitar dificuldades no posterior processo de certificação.

 

 

Quais as tendências futuras de interação a nível de Saúde? 

  • Promoção da Saúde destrona a prevenção da doença. A utilização de dispositivos eletrónicos como a fitbit para a promoção da saúde será uma tendência.

Value-based Healthcare. Quantificar e valorizar o impacto de cada serviço de saúde e equipamento no sucesso médico, resultando num benchmarking entre diferentes entidades. Júlio Martins

 

  • Integração de dispositivos. Dispositivos integrados num único ambiente clínico, as quais irão levantar questões de segurança e de usabilidade.
  • Alarmística sonora. Design de paisagens sonoras como elemento terapêutico ativo.
  • Apple e Google na Saúde. O facto de estas empresas tecnológicas desenvolverem já dispositivos móveis para monitorização da Saúde poderá ter consequência para o próprio processo de design. Não sendo utilizadoras do processo de Engenharia da Usabilidade proposto para os dispositivos médicos, o padrão de segurança vai ter de a) aproximar-se dos processos de certificação e b) as entidades reguladoras irão compreender que é possível ser disruptivo, inovador e manter a segurança.

Esta breve passagem pelos desafios e oportunidades colocadas pelo estado atual da tecnologia para a Saúde revelou, de novo, a importância de considerar o fator humano em todos os processos de conceção, design, implementação e teste de soluções.

 


*José Creissac Campos é Professor Associado com Agregação, no Departamento de Informática da Universidade do Minho e investigador sénior do HASLab/INESC TEC. Trabalha na intersecção entre a Interacção Humano-Computador e a Engenharia de Software, com particular ênfase em técnicas e ferramentas de análise automática de interfaces para sistemas críticos.

**Júlio Martins é co-fundador e sócio da EVERYTHINK, um estúdio de design, que aplica métodos de design criativo na resolução de problemas, na geração de ideias e conceitos e na criação de produtos e serviços com impacto na sociedade.

*** Carlos Silva é psicólogo com doutoramento em informática. O trabalho na indústria da saúde foi uma peça fundamental da sua investigação, tendo incluído a participação num programa de intercâmbio que o levou ao Center for Devices and Radiological Health da Food and Drug Administration. Atualmente é Product Designer na OutSystems onde desenvolve trabalho na área de Design de Produto e Interação Humano-Computador.


Pode visualizar a gravação da sessão 2 aqui:

 


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