A importância das TI em tempos de crise: uma breve reflexão

Gestão de crise orientada pelas Tecnologias de Informação (TI)

As TI assumem um papel preponderante em cenários de gestão de crise diversos, como por exemplo, catástrofes naturais e terrorismo [1]. É com base em infraestruturas tecnológicas orquestradas de troca e processamento de dados contextualizados, capazes de fornecer valiosas informações de apoio à decisão, que se potencia a mitigação de questões a este nível de complexidade.

 

Os tempos atuais, fortemente demarcados pela depressão pandémica e pelo seu devastador impacto na economia [2] inserem-se num contexto de crise especialmente desafiante pelas suas características, onde as TI suportam a ciência dos dados para que os decisores políticos possam intervir de forma apropriada, criando regulamentação de exceção específica e permitindo uma gestão mais efetiva do progresso daquele a que muitos meios noticiosos já apelidaram de “inimigo invisível”.

 

De facto, trata-se de uma guerra em várias frentes contra a invisibilidade e aparente omnipresença de um adversário sorrateiro, que em muito limita a amplitude de mediadas que podem ser tomadas ao mais alto nível e que visam um equilíbrio delicado entre dois pratos de uma mesma balança: um que pesa a sobrecarga do serviço nacional de saúde; e um outro que mede os indicadores de um sistema socioeconómico em vias de colapsar. Decorrente do desgaste deste jogo de equilíbrio e da intra e inter-relação subjacentes à cadeia de valores, foram já identificados alguns setores de atividades em situação de penalização agravada, desde a área da energia, da água e dos resíduos, passando pelo turismo e restauração até às indústrias agroalimentares [3].

 

A reposta aos novos desafios dos setores da economia

Globalmente, apesar de todo o receio e incerteza e trazida por esta recente conjuntura, tem sido dinâmica e célere a readaptação do estado e dos diversos setores da economia aos desafios emergentes, que assentam, essencialmente, em 4 níveis de ação:

  • Reforço da segurança higiénica dos pontos físicos de negócio, garantindo a continuidade saudável das atividades;
  • Adoção de vias telemétricas de comunicação entre produtores, retalhistas, fornecedores de serviços e consumidores finais;
  • Disponibilização de infraestruturas efetivas e democratizáveis para a transação de bens ou serviços;
  • Implementação/reajuste, junto do público, de estratégias de sensibilização integradoras de primeira linha em complemento com abordagens punitivas de última linha.

 

O potencial reestruturante das TI no contexto pandémico

Não obstante, com a ciência, tecnologias e know-how atualmente disponíveis, reserva-se, ainda, uma grande margem para atuar em complementaridade com os esforços em curso. Na área do turismo, por exemplo, encontram-se pouco disseminados os sistemas de visitas em tempo real com recurso a abordagens de telemetria e realidade virtual/aumentada/mista remota com potencial de criar pontos de acesso digitais apelativos ligados a estruturas como museus e galerias de exposições, que de momento veem as suas atividades suspensas por tempo indeterminado. Também nos serviços de hotelaria existe um potencial de aplicabilidade de TI, nomeadamente no que diz respeito à certificação de higiene e limpeza das instalações, que acaba por ser um ponto sensível e controverso pela insegurança que gera no público-alvo. Tecnologias low-cost envolvendo sensores químicos, leves e baseadas na localização de interiores que pudessem equipar instrumentos de limpeza, no sentido de atestar a higienização dos espaços poderiam resultar numa oportunidade de reforçar a confiança nos negócios baseados em alojamento, tanto ao nível dos decisores políticos como ao nível da procura. Já no contexto da restauração, abordagens de tickets eletrónicos para gestão de filas virtuais e inferência de tempo de espera para serviços de takeaway mais dinâmicos com permanência reduzida ou nula em espaços de frequência comum seriam, possivelmente, uma aposta a considerar. Os atuais impedimentos nas deslocações entre concelhos também têm tido a sua cota parte no impacto a que se assiste no ramo imobiliário ligado à estagnação do arrendamento/compra de alojamentos, sobretudo em locais afastados dos grandes centros, o que poderia ser mitigado se a promoção de soluções para visitas em telepresença nos seus variados formatos (e.g. navegação e visualização de ambientes virtuais 360º) estivesse devidamente contemplada. Estes são apenas alguns dos exemplos da possível aplicação de TI para a mitigação da cadência económica de certas áreas, mas outros mais poderiam ser enumerados – por exemplo, para a indústria da moda, indústria agroalimentar, educação, etc. -, suscetíveis, inclusive, de gerar uma reabilitação em cadeia.

 

A democratização no acesso às soluções de TI

Por si só, muitas empresas destas e outras áreas não têm capacidade de investimento para se reestruturarem com base em TI e, a cada dia, perdem capacidade de faturação num contexto caraterizado pela pandemia da COVID-19, numa espiral recessiva imprevisível. As ferramentas de financiamento do estado, se estendidas com uma visão estratégica de reestruturação, poderiam democratizar o acesso destas empresas a oportunidades que lhes permitissem fazer face aos desafios levantados por estes novos e incertos tempos. As entidades capazes de levar esta reestruturação a cabo, com base em experiência de investigação, desenvolvimento e inovação, existem e devem ser olhadas como aliadas neste combate, como é o caso dos Centros de Interface que desempenham este papel central no Sistema de Inovação em Portugal.

 

CCG: um parceiro multidisciplinar transformador

O CCG, enquanto Centro de Interface tecnológico de inovação e desenvolvimento para a economia digital, tem uma ampla experiência nas áreas da realidade aumentada, virtual e mista e visão por computador, na crescentemente relevante inteligência artificial, big data/data mining, interação homem-máquina, usabilidade, mobilidade sustentável entre muitas outras. Para responder aos novos desafios supramencionados, o CCG afirma-se como um player de relevo para a reabilitação da economia, com know-how técnico de excelência para o desenvolvimento de produtos digitais focados na telepresença. Um dos mais flagrantes exemplos desse know-how é o Projeto FAMEST (POCI-01-0247-FEDER-024529) que visa a implementação de soluções tecnológicas aplicadas à Indústria do calçado. Salienta-se o desenvolvimento de um provador virtual que possibilita que potenciais clientes de uma dada superfície comercial “experimentem” sapatos no conforto da sua casa, com recurso ao seu smartphone e tecnologias de deep learning e realidade aumentada. Sem prejuízo para os anteriores aspetos, o CCG continua a providenciar soluções de ponta para o progresso tecnológico em vários setores de atividade, por exemplo, colaborando em diversos projetos de inspeção ótica automática para Indústria (metalúrgica, metalomecânica, moldes, etc.) e, mais recentemente, num projeto na área da saúde com foco no estudo de imagem de patologia clínica, nomeadamente para a deteção e caracterização de cancro, alinhando-se, desta forma com pilares valorizados pelo Horizonte Europa.


Referências

[1] Silva, C. (2011). Catástrofe em Portugal: Gestão da Informação (Dissertação de Mestrado em Guerra da Informação).

[2] Aubyn, M. S. (2020). O impacto económico da pandemia Covid-19 em Portugal. Pensamiento iberoamericano, (9), 42-50.

[3] Luís Alexandre, “Quais são os setores mais afetados pelo coronavírus?”. ECO – Economia Online. 27 de março de 2020. Disponível em: https://eco.sapo.pt/2020/03/27/quais-sao-os-setores-mais-afetados-pela-coronavirus/

 


Telmo Adão

Coordenador de Desenvolvimento D.I.A CVIG: Computer Vision, Interactions and Graphics @CCG

Telmo Adão é o atual coordenador de desenvolvimento do CVIG (Computer Vision, Interaction and Graphics) do Centro de Computação Gráfica (CCG), Universidade do Minho, Portugal. É doutorado em Informática (Modelação Procedimental). Acumula 10 anos de experiência em projetos de I&D.  Tem interesse nas áreas da Realidade Virtual, Aumentada e Mista, Inteligência Artificial, Processamento Digital de Imagem e Visão por Computador e IoT. É, também, Professor Convidado na Universidade do Minho.