Entrevista com Luís Amaral “O Centro de Computação Gráfica é uma referência na sua área”

  • Fonte: Universidade do Minho | Link da entrevista
  • Data: 30-04-2020 | Nuno Passos | Fotos: Nuno Gonçalves e CCG

Luís Amaral é presidente do conselho de administração do CCG desde 2006, coordenador da Rede Casas do Conhecimento, professor associado do Dept. Sistemas de Informação da Escola de Engenharia da UMinho e investigador do Centro Algoritmi

Entrevista a Luís Amaral, presidente do CCG, inserida no ciclo de conversas com os responsáveis das unidades de interface da UMinho.

 

O Centro de Computação Gráfica (CCG) surgiu em 1993. Com que objetivo?
A transferência de conhecimento das universidades para a a “economia” é um assunto que está na agenda de todos. Desde logo das próprias universidades, que se interessam por maximizar a utilidade do conhecimento que geram, mas também dos governantes, das empresas e da sociedade em geral, que quer ver os seus impostos bem aproveitados. Inicialmente no domínio da Computação Gráfica, a Universidade de Coimbra soube aproveitar uma oportunidade com que foi confrontada e, certamente com a intenção de potenciar a transferência de conhecimento desta área, fundou o CCG. Em 2000 houve a oportunidade de refundar o CCG em Guimarães (possível pela visão e empenho dos professores Altamiro Barbosa Machado e António Guimarães Rodrigues), com a Universidade do Minho a substituir a de Coimbra, que na altura não estava a conseguir encontrar as condições que viabilizassem esta iniciativa. Assim, nos últimos 20 anos, o CCG tem desempenhado, julgo que bem, esse papel tão importante de transferir para a economia e para a sociedade o conhecimento gerado na UMinho, agora na área das Tecnologias da Informação, Comunicação e Eletrónica (TICE).

Quais são os recursos do CCG?
Entre os anos de 2000 e 2009, o CCG ocupou diversas instalações provisórias. Inicialmente em instalações alugadas fora do campus de Azurém e, depois, num dos icónicos “pavilhões verdes”. Em janeiro de 2009 inaugurou o seu edifício sede, que entretanto se construiu no campus como resultado de um financiamento do Governo de 3.8 milhões de euros. Os 2500 metros quadrados deste edifício albergam infraestruturas tecnológicas de ponta em instalações modernas. Destaca-se o auditório, o Datacenter e a CAVE (Cave Automatic Virtual Environment), um equipamento essencial para alicerçar atividades e projetos em áreas tecnológicas de vanguarda na simulação, automação, realidade virtual e computação gráfica aplicada em geral. Quanto aos colaboradores, inquestionavelmente o maior património do CCG, contamos com cerca de 50 pessoas contratadas e aproximadamente 30 bolseiros. Passaram nestes 27 anos pelo CCG mais de 90 colaboradores contratados e centenas de bolseiros. Esta elevada taxa de rotação é o testemunho da qualidade dos quadros do CCG e da sua vocação de “Escola”. Muitos desses colaboradores, depois de alguns anos no CCG, acabaram por integrar empresas nacionais e estrangeiras, acompanhando os projetos que iniciaram no CCG.

Que balanço faz do percurso desta interface até ao momento?
Não vou enumerar os sucessos alcançados, não por falta deles, mas porque o muito que ficou por conseguir e que ainda se pode fazer é bem mais interessante. Certamente que 27 anos de existência são uma evidência do interesse e da viabilidade de uma instituição de interface como o CCG. São por si só uma prova do seu sucesso. Mas tem sido e certamente continuará a ser um percurso difícil. A missão nada tem de fácil, fundamentalmente por duas razões. A primeira é a viciosa dependência que empresas portuguesas demonstram dos financiamentos públicos para a realização de atividades de inovação e de desenvolvimento tecnológico. Não existe a tradição de investimento próprio nestas atividades, criando-se assim uma perigosa dependência dos ciclos europeus de financiamento. A segunda é de natureza competitiva em termos internacionais. O financiamento basal do Estado português para instituições como o CCG é nulo, enquanto as congéneres de outros países europeus veem tradicionalmente a sua atividade ser financiada com cerca de 30% dos seus encargos totais. Esta situação reduz profundamente o nosso posicionamento competitivo e onera excessivamente as empresas portuguesas que recorrem aos serviços das instituições nacionais.

Que eventos destaca?
Inquestionavelmente, o conjunto de eventos organizados para celebrar o 25º aniversário do CCG. O ano de 2018 foi repleto de seminários e workshops que envolveram centenas de pessoas da academia e das empresas, que culminou com a sessão solene onde pudemos contar com a presença do “pai fundador” do CCG, José Luis Encarnação, o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, o presidente da Câmara Municipal de Guimarães, Domingos Bragança e o reitor da UMinho, Rui Vieira de Castro, para além de dezenas de ilustres convidados de instituições parceiras nacionais e internacionais. Foi um momento importante para o CCG e para a sua afirmação externa.

 

O principal projeto do CCG é saber reinventar-se

Quais são os principais projetos para os próximos tempos?
No último ano, iniciámos um processo de profunda reorganização interna e racionalização organizacional. Há neste momento uma direção executiva colegial, que elegeu no passado dia 24 de abril novos corpos sociais, incluindo naturalmente uma nova administração. Percebe-se que é um tempo de profunda mudança, sempre necessária para o sucesso de qualquer organização. Julgo assim que o principal projeto do CCG é a sua reinvenção. Uma reinvenção que lhe permita cumprir ainda melhor a sua missão.

Em que medida projetos como o do CCG contribuem para a missão da Universidade?
Faz parte da missão da UMinho zelar pela “efetiva apropriação externa e aplicação do conhecimento que produz”. Certamente que a UMinho tem muitas formas de promover essa apropriação, mas julgo que nenhuma tão eficaz e eficiente como a da utilização de instituições de interface vocacionadas para esse fim. No domínio das TICE, escolheu o CCG para desempenhar esse papel, que é assumidamente encarnado por todos no CCG e reconhecido pelas instituições parceiras nacionais e internacionais. Acredito que o CCG seja já o principal veículo de transferência de conhecimento da UMinho no domínio das TICE.

Quer deixar alguma mensagem final?
No ano de 2000 tive a grata oportunidade de ter participado na refundação do CCG junto da UMinho e, desde essa altura, tenho participado na sua administração. Tive até a oportunidade de a presidir nos últimos 15 anos. Tempo mais do que suficiente para perceber duas coisas. A primeira é que não é bom para nenhuma organização ter alguém, quem quer que seja, tanto tempo na sua condução. Mudança e renovação são condições de sobrevivência fundamentais nos dias de hoje. A segunda é que o CCG já percebeu essa necessidade e, como referi, está já a preparar-se para os próximos 20 anos de sucesso ao serviço da transferência do conhecimento e do desenvolvimento tecnológico. Assim, utilizando a terminologia dos dias de hoje, desejo e antevejo um futuro saudável para o CCG.