A mobilidade humana e o planeamento das cidades

Nos últimos anos as cidades têm sido instrumentadas com cada vez mais tecnologia, culminando inclusivamente com o surgimento de novos termos tais como Cidades Inteligentes ou Cidades Digitais, por exemplo.

No entanto, ao nível da mobilidade humana parece que o sentido é precisamente contrário. Congestionamentos de tráfego com maior impacto crescente ou oferta de transportes públicos desajustadas às necessidades dos habitantes, são apenas dois exemplos da dificuldade atual de mobilidade dentro e entre espaços urbanos, que pelo seu carácter recorrente influenciam a qualidade de vida dos indivíduos.

 

Congestionamentos de tráfego com maior impacto crescente ou oferta de transportes públicos desajustadas às necessidades dos habitantes, são apenas dois exemplos da dificuldade atual de mobilidade dentro e entre espaços urbanos…

Por outro lado, com o aumento de tecnologia instalada (com potencial para a mesma ser usada como sensor de mobilidade) ou através do aumento constante da pegada digital que cada indivíduo produz na sua interação com o ambiente envolvente, seria expectável que o caminho fosse no sentido das Cidades Inteligentes serem capazes de compreender as necessidades de mobilidade dos seus habitantes e, nesse sentido, de se ajustarem da melhor forma para irem ao encontro dessas mesmas necessidades.

Os resultados obtidos por Marta González [1] relativos à natureza da mobilidade humana (em particular no que se refere à existência de padrões nas trajetórias humanas) potenciaram o surgimento de diversos trabalhos centrados na análise de mobilidade humana com base em sensores físicos e/ou tecnológicos, que com maior ou menor rigor permitem a criação de mapas individuais e globais de mobilidade.

Assim, as Tecnologias e Sistemas de Informação são uma mais-valia para a compreensão da mobilidade humana e são, e poderão vir a ser ainda mais, uma ferramenta de apoio relevante para o planeamento das nossas cidades, em particular ao nível da mobilidade. Esta ideia em si já peca por tardia, já em 1995 Louis Alfeld [2] considerava que a observação das dinâmicas urbanas deveria auxiliar os decisores ou planeadores das cidades e de outros espaços urbanos.
Mas, se por um lado temos a tecnologia ao nosso alcance e, por outro, existem exemplos de utilização da informação para a caracterização da mobilidade humana em espaços urbanos, a questão que se coloca é:

 

Por que motivo não estamos a rentabilizar estes recursos num planeamento mais ajustado das nossas cidades?

 

Nesse sentido, é importante criar um ecossistema de mobilidade urbana [3] com diferentes intervenientes e que potencie a mudança de paradigma relativamente à forma como se deve efetuar um correto planeamento da mobilidade. Esta mudança não é tanto tecnológica, uma vez que a tecnologia existe e até em alguns casos está disseminada pelas cidades, mas sim uma mudança na forma como se faz o planeamento urbano.

Esta mudança é, sem sombra de dúvida, importante, uma vez que o custo na criação ou modificação de infraestruturas dentro de um espaço urbano tem normalmente um grande impacto financeiro, pelo que o investimento apenas se justifica se efetivamente constituir uma mais-valia para os cidadãos e para o próprio espaço.
Assim, o ecossistema de mobilidade urbana seria constituído por um conjunto de entidades e interações mínimas para garantir por um lado a contínua observação do espaço urbano, e por outro a adequada atuação de acordo com a mais recente informação disponível.

 

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O espaço urbano e os indivíduos que com ele interagem estão na origem de fenómenos associados à mobilidade humana que deverão ser observados; a sua Observação através dos mais variados sensores produz um conjunto mais ou menos alargado de Dados; que, por sua vez, são a base da Análise que se pretende realizar; fruto da análise são produzidos Mapas de mobilidade humana, individuais e globais, dos quais surtirão recomendações ou preocupações relativamente a constrangimentos/anomalias identificados; estas recomendações deverão afetar um adequado Planeamento e um conjunto de ações a realizar; é com base nestes resultados que se realiza a Atuação sobre o espaço urbano.

Este processo é consecutivamente repetido uma vez que após as intervenções no espaço urbano é perfeitamente natural que sejam alterados os comportamentos e, como tal, os mesmos devam agora ser identificados. Também é natural que, com o tempo e devido às dinâmicas existentes nos espaços urbanos, seja necessário medir o estado atual da mobilidade humana com alguma periodicidade.

A aplicação de uma arquitetura igual ou próxima da apresentada anteriormente é de enorme relevância no planeamento dos espaços urbanos pois fecha um ciclo com início na observação, passando pela decisão e culminando na atuação.

 

O que tem sido prática comum é decidir e intervir sem a informação necessária para a correta tomada de decisão, muitas vezes decidindo mesmo sem se conhecerem as reais necessidades quer da cidade quer dos seus habitantes.

 

Neste momento estamos perante um cenário com todas as condições para que a mudança ocorra. O primeiro passo para a concretização desta realidade é reunir no mesmo esforço, os intervenientes das diferentes áreas tecnológicas para, em conjunto, identificarem inicialmente os problemas mais relevantes e formas de os minimizar.

 

A criação de equipas multidisciplinares que, em conjunto, discutam e alterem de forma planeada a mobilidade humana, é a base para tornar as nossas Cidades cada vez mais Inteligentes.


 

Fontes:
[1] M. C. González, C. a Hidalgo, and A.-L. Barabási, “Understanding individual human mobility patterns” Nature, vol. 453, no. 7196, pp. 779–82, Jun. 2008.

[2] L. E. Alfeld, “Urban dynamics-The first fifty years” Syst. Dyn. Rev., vol. 11, pp. 199–217, 1995.

[3] Tese de doutoramento em Tecnologias e Sistemas de Informação, submetida em Outubro de 2016 na Universidade do Minho, sob orientação do Professor Adriano Moreira (UM) e do Professor Carlos Bento (UC).


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João Peixoto | Gestor de projeto @CCG

João Peixoto é Licenciado em Engenharia Informática, Mestre em Informática e Sistemas , e como aluno do PDTSI na Universidade do Minho, submeteu em Outubro a tese “Da Observação à Trajetória: formalização de uma estrutura de informação espaçotemporal”. É gestor de projeto no CCG: Centro do Computação Gráfica no D.I.A UMC e investigador do Centro Algoritmi da Universidade do Minho. Os seus interesses de investigação centram-se na mobilidade humana, computação urbana, computação móvel e informação sensorizada.