Fatores Humanos no setor da Saúde

Errar é humano” é o título de um importante relatório feito em 1999 sobre a qualidade dos cuidados de saúde nos Estados Unidos da América[1]. Este relatório continha estatísticas perturbadoras sobre as principais causas de morte nos hospitais americanos. Estariam corretas?

Em 2013 as estatísticas foram atualizadas e verificou-se que as previsões sempre estiveram certas. Estima-se que o erro médico seja a terceira principal causa de morte nos hospitais americanos, depois de doenças cardíacas e cancro (Figura 1).

 

Figura 1. Ilustração das principais causas de morte reportadas no relatório “Errar é humano”, editado em 1999 e revisto em 2013.

No contexto europeu, os dados mostram-nos que erros médicos e eventos adversos ocorrem em cerca de 8% a 12% das hospitalizações[2]. Espanha, França e Dinamarca publicaram estudos de incidência com dados semelhantes.

Fatores Humanos

Existe uma disciplina científica capaz de compreender a fonte da maioria dos erros e dificuldades humanas. Chama-se Fatores Humanos.

Trata-se da disciplina que pretende melhorar a relação entre humanos e outras partes de um sistema. Inicialmente, concentrou-se no design de cockpits, controlos e comandos no interior de aviões[3], mas suas aplicações são infinitas. Inclui elementos de psicologia, anatomia e fisiologia, engenharia, design e uma série de outras disciplinas associadas a sistemas sociotécnicos humanos e de máquinas (Figura 2).

Figura 2. Alguns dos componentes da disciplina de Fatores Humanos: Psicologia, ciências sociais, design, gestão organizacional, engenharia, fisiologia, anatomia. Fonte: Human Factors for Health and Social Care, White Paper (2018). Chartered Human Factors Specialists

O objetivo dos Fatores Humanos é o de otimizar as capacidades dos seres humanos modo a estes alcançarem um melhor desempenho, segurança, saúde, e satisfação quando interagem com um sistema. Para isso, é necessário compreender as capacidades humanas, as suas características e variabilidade. Os profissionais de Fatores Humanos analisam as interações homem – máquina para então otimizar processos, técnicas, interações e a comunicação.

Bases de dados oficiais

No contexto hospitalar, um bom indicador de erros médicos são os incidentes reportados em bases de dados oficiais. Estes registos são posteriormente analisados para estudar as causas dos incidentes de segurança dos pacientes, e ajudam também a definir áreas nas quais se deve concentrar esforços de melhoria da qualidade e de fatores humanos.

No que diz respeito a incidentes com dispositivos médicos, a União Europeia disponibiliza agora a base de dados EUDAMED que, tal como faz a Food and Drug Administration (FDA) há vários anos, irá disponibilizar os relatórios associados aos dispositivos médicos certificados e comercializados.

Os dispositivos médicos são propensos a erros de interação por diversos motivos. Ao ler alguns destes relatórios, pode-se pensar que “erro humano” ou “erro do utilizador” são as primeiras causas dos incidentes. Contudo, a abordagem dos Fatores Humanos contempla uma perspetiva mais ampla do problema e incidentes, e tenta abranger todas as causas, tal como um mau design do produto. Como parte dos esforços para ir além do erro e da culpa nos incidentes de segurança do paciente, o foco tem recaído na parte que a tecnologia desempenha para a boa ou má realização de uma tarefa.

Uma mudança na tecnologia muda a natureza da tarefa humana.

Caso de estudo – Bombas de infusão

Problemas de software e de interface são um motivo importante para falhas de sistema ou de dispositivos. No ambiente hospitalar, o trabalho do investigador Paolo Masci com bombas de infusão[4] é uma excelente ilustração de como os incidentes não são apenas fruto de erro humano.

As bombas de infusão são dispositivos utilizados pelos médicos para injetar fluidos em pacientes, normalmente medicamentos ou nutrientes. Em quatro anos, nos Estados Unidos, a FDA recebeu aproximadamente 56.000 notificações de eventos adversos relacionados com bombas de infusão. 500 desses incidentes resultaram em mortes.

Muitos destes eventos adversos foram categorizados como erro de uso, mas foram fruto de problemas no design de software e da própria interface. Como erro de uso podemos considerar erros na digitação de números, erros na transcrição da prescrição para o dispositivo, ou falha ao verificar se o valor foi corretamente introduzido.

Para compreender como a tecnologia é por vezes o suporte do erro humano, Paolo Masci criou uma ferramenta de simulação que pode ser encontrada clicando neste link e deve ser acompanhada no seguinte vídeo feito pelo mesmo investigador:

Percebe-se assim que é fácil cometer erros de digitação quando o próprio equipamento não tem o mesmo modelo mental do que os seus utilizadores. Uns equipamentos passam de 9 para 10, outros de 9 para 0; uns equipamentos têm um ponto decimal, outros não; nuns equipamentos navega-se com as setas laterais, noutros estas setas gravam ou apagam da memória o último número. Quando, como os profissionais de saúde, se lida com equipamentos de diversos fabricantes, cada um com o seu modelo de funcionamento, em ambientes de elevada carga mental, tornam-se mais compreensíveis os erros que acontecem nos hospitais.

Caso de estudo – Alarmes auditivos

Outro estudo de caso interessante está nos alarmes auditivos dentro do hospital.

Os alarmes de dispositivos médicos representam 25% de todo o barulho dentro do hospital.

Existe um standard internacional que indica como esses alarmes devem ser desenhados (IEC 60601-1-8:2012). Contudo, apesar de recomendados nesta norma, estes alarmes têm diversos problemas. São difíceis de aprender, e são facilmente confundidos uns com os outros.

Estes erros acontecem porque os sons recomendados foram baseados numa premissa que funcionaria à partida: associar músicas a problemas. Por exemplo, o ritmo de “I Left my heart in San Francisco” de Tony Bennett podia ser utilizado para assinalar problemas cardíacos. E assim foi concretizado. Apesar de consistirem em beeps, estes beeps têm ritmos diferentes que, segundo alguns investigadores[5], funcionariam como mnemónicas para os eventos que representam (coração, medicação, temperatura, respiração, entre outros).

Mas esta ideia nunca foi testada com utilizadores antes de ser standardizada. Os testes laboratoriais feitos subsequentemente, revelaram isso mesmo: estes alarmes não são bons quando utilizados em situações reais, com muito equipamentos com os seus próprios sons, e com uma elevada carga mental da parte do pessoal clínico.

Este standard vai ser atualizado no final de 2019, e contará com novas propostas para alarmes sonoros para equipamento médico. Nesse sentido, também o CCG está a melhorar as paisagens sonoras dos hospitais, com o projeto Paterson que pretende usar uma metodologia centrada no utilizador para desenhar sinais sonoros mais fáceis de detetar, aprender e localizar.

A importância da normalização

Devido às crescentes ocorrências de eventos adversos causados pelas interfaces dos dispositivos médicos, a FDA nos EUA incluiu procedimentos de fatores humanos e engenharia da usabilidade nos seus processos de aprovação e certificação de dispositivos médicos.

A boa notícia para a União Europeia é que os novos requisitos do Regulamento de Dispositivos Médicos seguirão de perto os requisitos existentes nos EUA. Isso é importante no interesse da harmonização global e do aumento consistente dos padrões de qualidade. A norma IEC 62366 – Aplicação de engenharia de usabilidade a dispositivos médicos, fará parte do processo de certificação de dispositivos médicos fora dos EUA.

Pequenas melhorias

Os cuidados de saúde irão beneficiar de uma padronização e simplificação das tarefas, com protocolos e listas de verificação para reduzir a variabilidade, e com a aplicação da engenharia de usabilidade no processo de desenvolvimento. Finalmente, toda a implementação de tecnologia beneficia de testes de usabilidade com utilizadores reais.


O Centro de Computação Gráfica tem o domínio de Perceção, Interação e Usabilidade responsável pelas questões de Fatores Humanos na interação homem-máquina. Além de estar atualmente a trabalhar no desenho de novos alarmes sonoros para equipamento médico, este grupo já participou no processo de certificação de sistemas para o mercado americano, tem investigadores com experiência no processo de análise de erros da FDA, e é atualmente membro da rede MDevNet: Rede Nacional de Transferência de Conhecimento de Dispositivos Médicos.


Fontes:

[1] Donaldson, M. S., Corrigan, J. M., & Kohn, L. T. (Eds.). (2000). To err is human: building a safer health system (Vol. 6). National Academies Press.

[2] http://www.euro.who.int/en/health-topics/Health-systems/patient-safety/data-and-statistics

[3] Catchpole, K., & McCulloch, P. (2010). Human factors in critical care: Towards standardized integrated human centred systems of work. Current Opinion in Critical Care, 16(6), 618–622.

[4] Harrison, M. D., Masci, P., & Campos, J. C. (2018). Verification Templates for the Analysis of User Interface Software Design. IEEE Transactions on Software Engineering, 5589(c), 1–20. https://doi.org/10.1109/TSE.2018.2804939

[5] F. E. Block, “‘For if the trumpet give an uncertain sound, who shall prepare himself to the battle?’ (I Corinthians 14:8, KJV),” Anesthesia and Analgesia, vol. 106, no. 2, pp. 357–359, 2008.


Sobre a autora:

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Joana Vieira

  • Analista de usabilidade do D.I.A Perceção, Interação e Usabilidade @CCG

    Formada em Psicologia Experimental, é atualmente analista de Usabilidade no domínio de investigação aplicada Perceção, Interação e Usabilidade do Centro de Computação Gráfica. Esteve envolvida em projetos de certificação de produto ao nível da usabilidade e design centrado no utilizador; integra a equipa de Fatores Humanos de projetos de HMI automóvel, Saúde e TICs, tendo realizado estudos de validação de ícones e de gestos, entre outras metodologias; De momento é doutoranda de Ergonomia na Faculdade de Motricidade Humana (ErgoVR, FMH, Universidade de Lisboa), onde investiga sinais sonoros de aviso em ambientes laborais partilhados.